- 2 Anos mais tarde -
Eu tinha feito 19 anos a 28 de Fevereiro, mas agora estávamos em Junho e estava a realizar-se o campeonato nacional de Verão, a nossa equipa tinha chegado à final, mas nunca tivemos jogos grandiosos, com remates fantásticos e potentes ou outras técnicas.
Toda a equipa sabia disso… o motivo pelo qual estávamos todas desmotivadas era a partida de todos eles… O meu coração não aguentava mais a dor que a sua ausência causava, não conseguia fazer nada durante todos os noventa minutos de jogo, os meus passes não eram precisos, os meus remates eram fracos e iam parar logo às mãos da guarda-redes da equipa adversária, a minha alegria em jogar futebol e também na minha vida tinha desaparecido. A tristeza corroía-me por dentro a cada dia, a cada hora que a distância entre mim e ele ia aumentando.
Eu aproximava-me, perigosamente, de um poço sem fundo, há já vários meses que vivia naquele estado de angústia; os dias já não tinham cor, tudo tinha perdido o significado, era como se nada existisse à minha volta. A não ser o buraco fundo que se estendia à minha frente.
Enquanto tomava, calmamente, o meu duche depois do treino; sentia a água quente a precipitar-se sobre a minha pele nua a um ritmo tranquilo, de certa forma apaziguava o meu espírito, mas a dor excruciante não desaparecia.
Fechei o chuveiro, parei um pouco enquanto fitava aquelas paredes de azulejo branco e o chuveiro que tinha acabado de fechar, quando senti no meu rosto outras pequenas gotas, gotas que não tinham brotado do chuveiro, mas sim dos meus olhos, que se tinham tornado num vasto oceano, esvaziando-se a cada segundo. Eu não aguentava mais aquele sofrimento, sentia-me sozinha, a solidão impregnava o meu ser.
Comecei a sentir-me um pouco zonza, sem saber muito bem onde estava e qual era a razão da minha existência. Carecia dos seus braços para me amparar e dos seus lábios lúcidos para me adoçar o coração e encher-me de felicidade, há muito tempo que essa palavra não fazia parte do meu dicionário… “Felicidade”.
Vi-me obrigada a apoiar-me na parede para não cair ali mesmo. As minhas pernas sucumbiram à pressão, para me manter de pé, obrigava os meus braços e as minhas mãos também a fixarem-se à tubagem, que escaldante, dilacerava a pele dos meus dedos. Os meus olhos também já não conseguiam permanecer abertos, cada lágrima que vertia, parecia lancetar-me o rosto, cada uma delas rasgava uma nova ferida no meu coração. O "sangue" que "jorrava" dessas feridas alastrava-se queimando todo o meu corpo, minando-o de dor e sofrimento atrozes.
As minhas pernas falharam subitamente e os meus joelhos embateram violentamente contra o chão, fui percorrida de novo por uma dor aguda que me fazia gritar a plenos pulmões de agonia, e aumentava a quantidade de água que saía dos meus olhos. Eu tinha caído, sentia-me a ser puxada para um buraco negro, um poço escuro interminável que me engolia naquele momento.
Tentei refazer-me, ali mesmo, mas era impossível acalmar a dor que me percorria as veias, cada vez mais, a ferida, que eu tinha no meu coração, se tornava mais profunda e doía continuamente.
Exausta de sentir as lágrimas a "esquartejar" o meu rosto, decidi levantar-me, ainda um pouco desnorteada, num esforço hercúleo, reergui-me, tentava a todo o custo manter-me firme e de pé, mas as forças que me restavam já não eram muitas.
Pus a toalha em redor do meu corpo, encaminhei-me lentamente para os bancos do balneário. Tirei do cacifo o meu saco onde já tinha guardado o equipamento e as chuteiras e de onde tinha tirado a roupa que iria vestir, eram uns meros calções azul-escuros e uma t-shirt branca bastante larga, pois perdera a vontade de coordenar peças de roupa, nada tinha importância sem ele ao meu lado.
Sequei toda a água que ainda escorria pelo meu corpo, depois de ter vestido a roupa interior vesti os meus calções e t-shirt.
Depois de ter executado tamanha proeza, tentava mexer-me com naturalidade, incessantemente exausta, o meu corpo atingira o limite do que poderia suportar.
Sentei-me no banco no limiar do colapso. Não consegui evitá-lo, retomou o sufoco e o soluçado pranto, que se adensava através do mar que vertia dos meus olhos e desaguava sobre a pele do meu rosto, desta vez tentei controlar a minha vontade de gritar.
Sentia um enorme aperto no meu coração, não conseguia travar as pequenas gotas que brotavam dos meus olhos. Só tinha vontade de me eclipsar.
Delicadas notas e acordes fizeram-se ouvir, tocava uma melodia conhecida, ecoou por todo aquele espaço vazio, o meu telemóvel estava a tocar, mas aquele toque polifónico, eu só o tinha adicionado a um dos meus contactos… Estaria eu acordada ou a sonhar? O meu coração percipitou-se numa vertigem de batimentos, libertando-se de todas as amarras que o prendiam e da dor que o fustigava.
Era ele, a pessoa que eu mais amava no mundo, a pessoa que eu mais desejava ter ao meu lado, a única cura para a minha dor lancinante.
Eu comecei a procurar o meu telemóvel no interior do meu saco, mas não havia meio de o encontrar, as minhas mãos tateavam, com expressa urgência, enquanto o meu coração batia inquieto, parecia que o meu corpo tinha ganho nova motricidade. Finalmente as minhas mãos intersetaram um objecto sólido, foi quando retirei do saco o pequeno aparelho electrónico, este reluzia, era preto e o ecrã brilhava sob a luz do balneário, era desse pequeno aparelho que vinha a melodia que eu conhecia.
Desbloqueei rapidamente o meu telemóvel, encostei-o ao meu ouvido, ainda com algum receio dos efeitos que a sua voz teria sobre mim. Do outro lado da linha uma voz cândida e meiga inundou os meus ouvidos, sabia bem voltar a ouvir o seu timbre aveludado, o meu coração deu um baque surdo quando a interpretou.
- Olá, está tudo bem? – Perguntou a voz meiga.
Eu tinha de lhe mentir, não podia ser tão egoísta ao ponto de o deixar tão preocupado comigo.
- Sim, está tudo bem – disse eu, fingindo naturalidade e tentando mascarar a minha angústia, falhei redondamente, pois a minha voz ergueu-se, fraca e rouca, tinha arrasado por completo as minhas cordas vocais e só agora me dava conta disso.
- Não mintas… - disse ele com o seu tom de voz melancólico.
- Como é que eu já sabia que não ia conseguir esconder nada de ti? – Perguntei eu num tom irónico e com a mesma voz abatida e triste – sinto muito a tua falta, eu só te quero comigo, Taro – deixava o meu coração falar naquele momento, embora discordasse de mim mesma, sabia que o deixaria preocupado, desnecessariamente. Contudo já não me encontrava em posse integral das minhas faculdades, tal tinha sido a descarga emocional.
- Eu também sinto imenso a tua falta, quero-te comigo, sentir de novo o teu abraço, o teu perfume, o teu fôlego interpelado no meu… Não imaginas quão angustiante é, não te ter a meu lado – disse ele, as suas palavras fizeram com que o meu coração mergulhasse em batimentos rápidos e um tanto descoordenados. Constatava, afinal que ele estava na mesma situação que eu; ambos a sofriam com a distância, imposta pela profissionalização.
- Taro… quando… - eu tentava articular a pergunta, mas confesso, tinha muito medo da resposta, pois o mais certo seria arrasar-me completamente. Ainda assim, enchi-me de coragem: Quando voltas?
O silêncio imperou do outro lado da linha, ele media cada termo que empregava, equacionando a sua resposta milimetricamente, considerando o perigo de uma nova despedida para o meu, já deplorado, estado.
- Já não falta muito, mas ainda devo ficar, por cá, mais alguns meses… - ele fez uma pequena pausa e prosseguiu, aparentava ter alguma dificuldade em proferir as palavras, parecia que estava a lutar contra algo que o impedia de falar com naturalidade: tenho de ser franco, já não aguento mais… - a sua voz falhou no fim da frase, apesar de não conseguir ver os seus olhos, sentia que deles se desembrulhavam lágrimas cristalinas, estas toldavam a sua voz. Agora chorava ele, num pranto abafado, a dor compelia-o ao copioso soluçar.
Numa espécie de solidariedade e comiseração, dos meus olhos também se esgueirou uma maresia lacrimal, por ele, tentei conter nos meus olhos as lágrimas que continuariam a correr se eu não lhes pusesse um fim. Disse-lhe, ainda, com a voz pouco segura: Taro… por favor, não chores, o meu coração não consegue imaginar-te assim. Eu amo-te e nada vai mudar isso, tens de ser forte, não podes deixar que isto te derrube, tens de realizar o teu sonho de te tornares jogador profissional, permanecerei aqui… ao teu lado… - disse, encorajando-o, era a única coisa que estava ao meu alcance, depois de tudo aquilo que ele fez por mim.
Eu tentava fintar minha própria tristeza, mas sucumbi amargamente ao golpe que atingiu com precisão o meu coração, impiedoso.
Do outro lado da linha a sua respiração parecia ter-se regulado, aparente tranquilidade, ele limpou as cordas vocais e disse com um tom abalado: Tens razão, estou a ser um grande cobarde, eu vou lutar até ao limite das minhas forças para conseguir estar de novo contigo, só tu me dás forças para continuar a lutar… - as notas de coragem a impregnar-lhe a voz, também eu me deixava contagiar por aquele novo fôlego.
O que ele dissera, aplicava-se também a mim, só de pensar que ele era a minha realidade e que um dia nos haveríamos de encontrar de novo, pejava-me de forças para continuar.
No fim, dissemos ambos, em uníssono: Amo-te… - depois disso, silêncio, deixei de ouvir a sua voz branda e o silêncio toldou os meus ouvidos, a dor ressurgiu no meu coração como se fosse uma bala certeira, que me rasgava o peito sem dó nem piedade.
Escrita por: Rita Misaki
Revista por: Rita Misaki
Ideia Original de: Ana Silva e Patrícia Brito
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